Por Tom Farias
SOLTADOR DE PIPAS

3 minutos

Quem me conhece um pouquinho sabe o quanto de memórias guardo de minha infância, infância daquele menino franzino, pouco falante e que por qualquer coisa metia a cara nos livros, como uma forma de se esconder do mundo de gente grande.

O genial Manuel Bandeira (1886-1968), no poema “Epígrafe”, escreveu algo que pode muito bem se aplicar a mim, menino-garoto dessa fase: “Sou bem-nascido. Menino, /Fui, como os demais, feliz. /Depois veio o mau destino, /Fez de mim o que quis.” Eu leio estes versos desde a minha adolescência, e ele martela no meu cérebro feito cantochão litúrgico, ladainha, uma prece, espécie de soneto.

Mas eu não me esqueço também que é dessa fase que vem o meu gosto pelas pipas. No subúrbio do Rio carioca, onde nasci e cresci, pipas que para outras regiões do país são aqueles papagaios de rabo de papel (ou rabiola) que a gente empina (ou solta) amarrados por uma forte linha, quando o vento está muito favorável ao esforço de voar.

Na ruazinha de terra do bairro de Realengo onde minha mãe morava, depois dos deveres de casa (incluindo os cadernos da escola), eu ia soltar ou empinar as minhas pipas. Gostava das coloridas, muito próprias para a ocasião, de verão arretado, calor arrebatador, céu azul quase anil. No alto, um bando de outras pipas se cruzavam e se chocavam no ar. Era uma disputa da beleza; era também uma disputa pelo melhor adestramento dos seus soltadores e do cerol das linhas que eliminavam no ar as que não possuíam tão eficiente instrumento cortador.
Eu fiquei fanático por pipas. As soltava de noite ou de dia. No íntimo era minha forma de me comunicar com o mundo. Eu era de poucos amigos. Menino negro, de família pobre, com pouco brinquedos “modernos”: meus carrinhos de madeira, ou meu patinete de rolimã (que enguiçava toda hora), não eram atrativos para os meninos “endinheirados”, que dispunham de bicicletas de aro cromado, selim anatômico, acolchoado.

Vira e mexe voltava para a casa com o joelho ralado, marcas que guardo até os dias de hoje, na idade de homem maduro, que tristemente olha pro céu e não vê mais, em nenhum lugar, aquela inocência presa na forma de uma rabiola e carretel de linha.

Publicado em 20/05/2021

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Tom Farias
É escritor e pesquisador. Escreve para o jornal O Globo e revista Quatro Cinco Um.
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