Por Sanket
NZINGA MBANDI – RAINHA DO NDONGO E DA MATAMBA (1581/1663)

5 minutos

Uma das maiores referências femininas africanas de luta e resistência contra o colonialismo no século XVII sem dúvida é a Rainha Nzinga Mbandi. Nascida em 1581, como uma das descendentes da família real do Ndongo, um dos estados vassalos do Reino do Congo, localizado a leste de Luanda entre os rios Cuanza e Lucala, filha do Rei do Ndongo “Ngola Kiluanji” – daí o nome Angola para o país africano, Nzinga ilustra uma das mais importantes páginas da História dos séculos XVI e XVII. Rainha, Guerreira, Diplomata, é sem dúvida o espelho de muitas mulheres negras africanas guerreiras do Brasil.

Nzinga utilizou de todos os meios para manter sua soberania, em busca de coesão dos reinos africanos contra os portugueses casou-se com um Soberano Imbangala ou Jaga (muitos dos integrantes do Quilombo dos Palmares eram da linhagem dos povos Imbagalas ou Jagas). Outra estratégia sua era o conhecimento e a fluência em português e italiano (aprendido com seu confessor o Padre Antonio Cavazzi de Montecucolo).

Sua história atravessa o Atlântico, pois cada vez que a rainha guerreira perdia uma batalha contra os portugueses pela soberania de seu reino, seus soldados capturados eram enviados como escravizados para o Brasil e assim, seu povo manteve vivo a lembrança desta heroína africana.

Tão preservada sua memória ficou, a lembrança de sua argúcia e as formas que enfrentou os portugueses, uma hora com a lança na mão, outra hora em ações diplomáticas, que a fizeram até mesmo adotar um nome português com o qual foi batizada na religião católica: Ana de Sousa.

Tão arguta era que corre uma anedota sobre suas relações com os portugueses: “contam que numa entrevista dela com o governador português, ela chegou com seu séquito e o governador com a intenção de a humilhar não lhe ofereceu uma cadeira para sentar-se, Nzinga chamou uma das integrantes de seu séquito e a fez colocar-se em posição de forma que toda a entrevista se deu com Nzinga sentada sobre a mulher. No final da entrevista, quando já se estava se retirando, o governador perguntou a ela se não levaria a mulher e Nzinga respondeu que deixava a “cadeira” de presente para ele, deixando o governador e todo seu grupo de cara no chão.

Aqui no Brasil, seus soldados transmitiram sua força, contaram sua história e sua lembrança se enraizou aqui no Brasil, tanto que você com certeza já ouviu ou até usa o termo “ginga ou gingado” sem saber que está relacionado com a poderosa Rainha Nzinga (ou Nginga como se grafa aqui no Brasil).

As Congadas do Sudeste Brasileiro, formada em sua maior parte por descendentes dos africanos vindos do Reino do Congo encenam a batalha da Rainha Nzinga contra o Rei do Congo na primazia pela saudação a São Benedito. Vou te contar um segredo: aquilo que eles chamaram de Cultura Popular na realidade era uma forma alegórica dos negros africanos escravizados e seus descendentes transmitirem oralmente fatos e acontecimentos políticos africanos. Houve realmente um enfrentamento da Rainha com o Rei do Congo mas era por soberania em suas terras.

Aqui no Brasil um outro lugar que era basicamente um reflexo do Reino da Rainha Nzinga Mbandi era Palmares, isto mesmo, o Quilombo dos Palmares, onde Zumbi, Ganga Zumbi, Alqualtune, Acotirene, Dandara e todos estes nomes lindos dos guerreiros de Palmares que vc conhece eram contemporâneos da Rainha e provavelmente não foram poucos os guerreiros de Palmares que vieram da Angola, depois de subjugados pelos portugueses nas batalhas contra a Rainha.

Ela se faz presente na memória do povo angolano assim como vive nas lembranças da Diáspora no Brasil, já foi tema de Desfile de Escola de Samba, tema de músicas e está presente nos folguedos populares como o Maracatu.

Por que estou te contando tudo isto? Para te convidar a fazer viagens de Afroturismo e (re)conhecer a presença da nossa Rainha Nzinga Mbandi, numa roda de capoeira, numa roda de samba, no Quilombo dos Palmares ou nas Congadas de Minas e São Paulo.

Vamos lá?

Conheça um pouco da saga de Nzinga Mbandi através desta publicação da Unesco:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/77/Nzinga_Mbandi_Queen_of_Ndongo_and_Matamba_Portuguese.pdf

Delicie-se com o filme sobre ela produzido pela Semba Produções de Angola, que conta com a interpretação de Lesliana Pereira (Miss Angola 2008) no papel da Soberana do Ndongo e da Matamba:

https://youtu.be/GIWVPOuSYXA

Encante-se com Clara Nunes que conta que os negros faziam saudação a rainha, adivinha quem: https://youtu.be/Vj2bkKjlNe4

Assista ao Desfile da Tom Maior homenageando Angola e é claro, a Rainha Guerreira: https://www.youtube.com/watch?v=_gacqJNrRlc&t=319s&ab_channel=Fam%C3%ADliaSambamor

Por fim, Angola e é claro a Rainha Nzinga Mbandi:

https://youtu.be/_gacqJNrRlc

Escrever me deu fome e aí já fazendo spoiler: o próximo texto será sobre Gastronomia, a influência da culinária africana no Brasil tendo a Rainha e seu reino como tema. Vamos lá?

 

Publicado em 27/05/2021

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Sanket
Faz parte da rede de autogestão por meio da Sociocracia, é consultora, sócia do The Forest e uma grande curiosa de tecnologias sociais capazes de fazer as relações mais saudáveis, sejam elas com o próximo, com o mundo ou com a gente mesmo.
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