Foto por Frank Mckenna| Unsplash
Por Tom Farias
CONFISSÕES DE UM MENINO PRETO

2 minutos

Eu nasci no subúrbio carioca de Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Meu pai era servidor público; minha mãe foi dona de casa até a morte de meu pai, por volta de 1970. Tenho pouca informação sobre como era o meu pai no seu dia a dia. Da minha mãe me recordo bem: era festiva, risonha, estatura meã, operosa. Lembro-me que, moleque entre quatro irmãos menores, eu saía de casa para a rua, calção costurado à mão pela falta de máquina, camiseta e chinelo no pé. Eu era um menino preto franzino, mas bem nutrido e arrumado.

Subúrbios e quilombos guardam alguma semelhança. Ambos têm casas simples, pretos e pobreza. Eu me vi nesse lugar sem conhecer o que era um quilombo, como muitos ainda pouco se identificam com a cultura ou a religião de matriz africana. É normal dúvidas e incertezas. Também é normal evoluirmos para algo que vai além da memória afetiva, para alcançarmos a parte prática da vida. Sou desses que andam revisitando o passado. Sobretudo o da minha infância, especialmente o da minha ancestralidade.

No meu tempo de infância, minha mãe ralhava comigo para ficar um pouco em casa; hoje as mães fazem o oposto. A infância de hoje está circunscrita nos aparelhos eletrônicos e nas redes sociais. Minha neta Alika tem Instagram desde o primeiro ano de vida; aos três ela já tem centenas de seguidores.

Na minha época, a rua era o nosso maior parque de diversões; já o foi os playgrounds dos prédios modernos. Atualmente os quartos dos filhos são os compartimentos de domicílios onde se passa a maior parte do tempo. Sou da modernidade do carrinho de rolimã, feitos por nós moleques, com restos de madeira achados no lixo. Hoje a favelização – polvilhada de barracos – tira do lixo aquilo que era o maior alimento de nossa diversão.

Quando era bem pequeno minha avó Maria Fernandes dizia que o sol namorava com a lua. E nós – ainda imberbes meninos sonhadores – passávamos hora a fio sentados na beira da porta de casa contemplando o céu. O que queríamos, unicamente, era ver o beijo da estrela lua com o astro sol. Era tudo.

Publicado em 10/01/2021

Leituras Recomendadas

Arquivos

Receba nossa newsletter
  •  

Tom Farias
Tom Farias
É escritor e pesquisador. Escreve para o jornal O Globo e revista Quatro Cinco Um.
Share This