ATIREI NUM PARDAL E ACERTEI UM DINOSSAURO

ATIREI NUM PARDAL E ACERTEI UM DINOSSAURO

Vamos nesta jornada pelo Afroturismo, nunca se falou tanto e nunca nós vimos tantas ações ligadas a esta modalidade turística no Brasil.

Lembram-se que falei do processo que sofremos em 2006 ao lançar a Rota do Escravo? Bem, em primeiro lugar que a palavra “branding” não fazia parte de nosso vocabulário, em segundo lugar que os amigos não gostavam do termo, mas não tinham coragem de me falar, tamanho era o meu comprometimento com a projeto. Choque de realidade, Ministério Público, acusação de “apologia a escravidão” e “simpatia pela escravidão”, jornadas por delegacias do Vale do Paraíba como uma criminosa (esclarecimentos do tipo: “ a senhora chicoteia quilombolas?”, “ a senhora tem acertos com grandes fazendeiros para fazer o teatro da Escravidão?” Não, não, não….acode aqui Jesus……eu quero apenas falar como os negros construíram este país, que tem mão negra em tudo o que você pensa, que o “barão do café” só existe porque tem suor negro construindo sua riqueza, que Tia Nastácia e Tio Barnabé são maiores do que você imagina, que a segunda maior Festa Religiosa Católica de Aparecida é dedicada a São Benedito o santo preto e que os negros refazem os caminhos memoriais das lutas políticas no Reino do Ndongo através da Congada….ufa….explica, explica…

Audiência de conciliação, sem advogado vou eu e meu marido para o encontro, eu tenho a consciência livre, eu sei quem sou e o que desejo. A Juíza e o advogado jornalista impetrante do processo, uma conversa de gente louca, eu dizendo: – Este é o projeto da minha vida, como o senhor pode fazer isto comigo? Ao que ele responde: – Eu nem sei quem é a senhora, estou aqui processando sua empresa que faz apologia a escravidão….eu dizendo que estava baseada em todo o trabalho da UNESCO e ele respondendo que a UNESCO era uma instituição séria e que jamais apoiaria um projeto como o meu, eu explicando que não faço apologia a escravidão, que não amarro negro em tronco, ele dizendo que estou explorando o músico Bonfiglio de Oliveira ( o Bonfligio de Oliveira foi uma dos maiores músicos deste país, é praticamente desconhecido de todos, nasceu em 1898 e em 1930 compunha com Pixinguinha o grupo “ Os 8 Batutas”, pistonista, foi presenteado pelo então presidente Washington Luiz com um pistão de ouro, era considerado o Louis Armstrong do Brasil, e o advogado dizendo que eu explorava o Bonfliglio), enfim, a Juíza pergunta ao nobre advogado o que ele quer e ele responde:

– Que ela mude o nome deste projeto, pois todo mundo sabe que a baixa auto estima do negro é por conta de ser descendente de escravos…..

A Juíza então pergunta:

– A senhora vai mudar o nome do projeto? Eu respondo:

– Sim, mudo.

Ele se vira para a juíza e diz:

– Quero saber o novo nome.

Eu pergunto pra juíza:

– Sou obrigada a falar pra ele?

Ao que ela responde:

– Nobre advogado, trata-se de direito empresarial, ela não é obrigada a nos informar o novo nome, se o novo nome ferir as regras do direito, o senhor entra com novo processo! Assinei um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta, afirmando que não utilizaria a palavra escravo e escravidão, que só falaria dos negros e não exaltaria barões do café. Vocês podem ler todo o termo em: https://www.afropress.com/mp-sp-proibiu-uso-do-termo-rota-do-escravo/

E assim saímos da tal audiência, eu com o coração despedaçado por vivenciar aquele momento, com um novo nome na mente e ele feliz, tinha um jornal de web  e no dia seguinte estampou a manchete: “Acabamos com a Rota do Escravo”.

Eu???? Em 2009 a Rota da Liberdade foi eleita 1 dos 10 Melhores projetos de Geoturismo do Mundo no Desafio de Geoturismo da Ashoka/National Geographic, em 2012 fui convidada para a UNESCO para que o meu projeto de Turismo Étnico “Rota da Liberdade” fizesse parte do projeto de Desenvolvimento do Turismo de Memória da Diaspora, fui oficialmente contratada como Consultora, especialista Brasil/América do Sul, trabalhamos no Guia Metodológico de Desenvolvimento de Sítios de Memória da Diáspora Africana no mundo. Em 2020 ganhamos o Prêmio do Desafio da Ashoka/CTG Brasil como 1 das 3 Melhores Iniciativas de Turismo Sustentável do Brasil.

E vamos em frente pois lá vem história.

Até breve.

 

SOLANGE BARBOSA,  apaixonada pela vida, nascida na cidade de São Paulo, lá na Barroca Zona Sul (bairro do Cambuci e sede de uma das mais antigas escolas de samba da cidade), sou licenciada em História e Especialista em Afroturismo, CEO da Rota da Liberdade e 1 das 40 Global Shakers em Turismo Sustentável.

NZINGA MBANDI – RAINHA DO NDONGO E DA MATAMBA (1581/1663)

NZINGA MBANDI – RAINHA DO NDONGO E DA MATAMBA (1581/1663)

Uma das maiores referências femininas africanas de luta e resistência contra o colonialismo no século XVII sem dúvida é a Rainha Nzinga Mbandi. Nascida em 1581, como uma das descendentes da família real do Ndongo, um dos estados vassalos do Reino do Congo, localizado a leste de Luanda entre os rios Cuanza e Lucala, filha do Rei do Ndongo “Ngola Kiluanji” – daí o nome Angola para o país africano, Nzinga ilustra uma das mais importantes páginas da História dos séculos XVI e XVII. Rainha, Guerreira, Diplomata, é sem dúvida o espelho de muitas mulheres negras africanas guerreiras do Brasil.

Nzinga utilizou de todos os meios para manter sua soberania, em busca de coesão dos reinos africanos contra os portugueses casou-se com um Soberano Imbangala ou Jaga (muitos dos integrantes do Quilombo dos Palmares eram da linhagem dos povos Imbagalas ou Jagas). Outra estratégia sua era o conhecimento e a fluência em português e italiano (aprendido com seu confessor o Padre Antonio Cavazzi de Montecucolo).

Sua história atravessa o Atlântico, pois cada vez que a rainha guerreira perdia uma batalha contra os portugueses pela soberania de seu reino, seus soldados capturados eram enviados como escravizados para o Brasil e assim, seu povo manteve vivo a lembrança desta heroína africana.

Tão preservada sua memória ficou, a lembrança de sua argúcia e as formas que enfrentou os portugueses, uma hora com a lança na mão, outra hora em ações diplomáticas, que a fizeram até mesmo adotar um nome português com o qual foi batizada na religião católica: Ana de Sousa.

Tão arguta era que corre uma anedota sobre suas relações com os portugueses: “contam que numa entrevista dela com o governador português, ela chegou com seu séquito e o governador com a intenção de a humilhar não lhe ofereceu uma cadeira para sentar-se, Nzinga chamou uma das integrantes de seu séquito e a fez colocar-se em posição de forma que toda a entrevista se deu com Nzinga sentada sobre a mulher. No final da entrevista, quando já se estava se retirando, o governador perguntou a ela se não levaria a mulher e Nzinga respondeu que deixava a “cadeira” de presente para ele, deixando o governador e todo seu grupo de cara no chão.

Aqui no Brasil, seus soldados transmitiram sua força, contaram sua história e sua lembrança se enraizou aqui no Brasil, tanto que você com certeza já ouviu ou até usa o termo “ginga ou gingado” sem saber que está relacionado com a poderosa Rainha Nzinga (ou Nginga como se grafa aqui no Brasil).

As Congadas do Sudeste Brasileiro, formada em sua maior parte por descendentes dos africanos vindos do Reino do Congo encenam a batalha da Rainha Nzinga contra o Rei do Congo na primazia pela saudação a São Benedito. Vou te contar um segredo: aquilo que eles chamaram de Cultura Popular na realidade era uma forma alegórica dos negros africanos escravizados e seus descendentes transmitirem oralmente fatos e acontecimentos políticos africanos. Houve realmente um enfrentamento da Rainha com o Rei do Congo mas era por soberania em suas terras.

Aqui no Brasil um outro lugar que era basicamente um reflexo do Reino da Rainha Nzinga Mbandi era Palmares, isto mesmo, o Quilombo dos Palmares, onde Zumbi, Ganga Zumbi, Alqualtune, Acotirene, Dandara e todos estes nomes lindos dos guerreiros de Palmares que vc conhece eram contemporâneos da Rainha e provavelmente não foram poucos os guerreiros de Palmares que vieram da Angola, depois de subjugados pelos portugueses nas batalhas contra a Rainha.

Ela se faz presente na memória do povo angolano assim como vive nas lembranças da Diáspora no Brasil, já foi tema de Desfile de Escola de Samba, tema de músicas e está presente nos folguedos populares como o Maracatu.

Por que estou te contando tudo isto? Para te convidar a fazer viagens de Afroturismo e (re)conhecer a presença da nossa Rainha Nzinga Mbandi, numa roda de capoeira, numa roda de samba, no Quilombo dos Palmares ou nas Congadas de Minas e São Paulo.

Vamos lá?

Conheça um pouco da saga de Nzinga Mbandi através desta publicação da Unesco:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/77/Nzinga_Mbandi_Queen_of_Ndongo_and_Matamba_Portuguese.pdf

Delicie-se com o filme sobre ela produzido pela Semba Produções de Angola, que conta com a interpretação de Lesliana Pereira (Miss Angola 2008) no papel da Soberana do Ndongo e da Matamba:

https://youtu.be/GIWVPOuSYXA

Encante-se com Clara Nunes que conta que os negros faziam saudação a rainha, adivinha quem: https://youtu.be/Vj2bkKjlNe4

Assista ao Desfile da Tom Maior homenageando Angola e é claro, a Rainha Guerreira: https://www.youtube.com/watch?v=_gacqJNrRlc&t=319s&ab_channel=Fam%C3%ADliaSambamor

Por fim, Angola e é claro a Rainha Nzinga Mbandi:

https://youtu.be/_gacqJNrRlc

Escrever me deu fome e aí já fazendo spoiler: o próximo texto será sobre Gastronomia, a influência da culinária africana no Brasil tendo a Rainha e seu reino como tema. Vamos lá?

 

DO TURISMO ÉTNICO AO AFRO TURISMO, UMA JORNADA ÉPICA

DO TURISMO ÉTNICO AO AFRO TURISMO, UMA JORNADA ÉPICA

Você sabe o que é Afroturismo? Sabe o que são viagens afrocentradas? Senta que lá vem história!

Vamos começar com a Rota da Liberdade, um dos mais antigos projetos de Afroturismo do Brasil?

Rota da Liberdade – Afroturismo na RM Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira, no Estado de São Paulo

Refletindo sobre a jornada que vivenciei desde a criação da Rota da Liberdade em 2004 até a virada de 2020 eu me assustei com tanta coisa linda que aconteceu nestes anos. Lançada em 2006 na cidade de Sorocaba pela Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, a Rota se chamava “Rota do Escravo”, em referência ao projeto mundial da UNESCO , de mesmo nome e que nos orientava a criar “Roteiros de Memória da Diáspora Africana”, através do mapeamento das comunidades diaspóricas e seus lugares de memória. O nome não foi bem recebido (eu não sabia nada sobre marketing e marcas) e assim, depois de um torturante processo judicial (conto esta estória em outro texto, porque é longa e envolve muitos conceitos sobre Escravidão e Liberdade), lá se mudou o nome para “Rota da Liberdade” em 2007.

Com 8 roteiros desenvolvidos em 20 cidades da região, a Rota da Liberdade mostra a influência negra na arquitetura, na gastronomia, religiosidade, arquitetura, música, dança e tudo o que possa estar relacionado a Cultura Negra.

Foi uma explosão de novas oportunidades, a Rota da Liberdade se tornava o primeiro Programa Cultural e Turístico de Mapeamento da Diáspora Africana a ser encampado por uma Secretaria de Estado de Turismo e que vem a se tornar referência nacional e internacional.

Em 2009 a Rota da Liberdade era eleita como 1 dos 10 Melhores Projetos de Geoturismo do Mundo no Desafio National Geographic/Changemakers da Ashoka, onde uma das juradas era ninguém menos que a Prêmio Nobel Wangari Maathay, a primeira mulher africana prêmio Nobel no mundo.

Em 2012 somos convidados a atuar como Consultores da Unesco para o Programa “Rota do Escravo”, já que a Rota da Liberdade estava sendo reconhecido como um “case” de sucesso já que todo o seu processo de construção se deu a partir da experiência de uma mulher negra empresária que criava um produto turístico de integração da Comunidade Negra gerando renda e trabalho a mesma, além é claro da valorização da Cultura Negra no Estado de São Paulo.

Neste momento estamos novamente na jornada como finalista de um Desafio da Ashoka, agora com a Sustentabilidade no Turismo, já somos novamente Top Ten e ao longo do tempo vamos contando para vocês sobre a Jornada do Afroturismo no Brasil.
Vamos?