SOLTADOR DE PIPAS

SOLTADOR DE PIPAS

Quem me conhece um pouquinho sabe o quanto de memórias guardo de minha infância, infância daquele menino franzino, pouco falante e que por qualquer coisa metia a cara nos livros, como uma forma de se esconder do mundo de gente grande.

O genial Manuel Bandeira (1886-1968), no poema “Epígrafe”, escreveu algo que pode muito bem se aplicar a mim, menino-garoto dessa fase: “Sou bem-nascido. Menino, /Fui, como os demais, feliz. /Depois veio o mau destino, /Fez de mim o que quis.” Eu leio estes versos desde a minha adolescência, e ele martela no meu cérebro feito cantochão litúrgico, ladainha, uma prece, espécie de soneto.

Mas eu não me esqueço também que é dessa fase que vem o meu gosto pelas pipas. No subúrbio do Rio carioca, onde nasci e cresci, pipas que para outras regiões do país são aqueles papagaios de rabo de papel (ou rabiola) que a gente empina (ou solta) amarrados por uma forte linha, quando o vento está muito favorável ao esforço de voar.

Na ruazinha de terra do bairro de Realengo onde minha mãe morava, depois dos deveres de casa (incluindo os cadernos da escola), eu ia soltar ou empinar as minhas pipas. Gostava das coloridas, muito próprias para a ocasião, de verão arretado, calor arrebatador, céu azul quase anil. No alto, um bando de outras pipas se cruzavam e se chocavam no ar. Era uma disputa da beleza; era também uma disputa pelo melhor adestramento dos seus soltadores e do cerol das linhas que eliminavam no ar as que não possuíam tão eficiente instrumento cortador.
Eu fiquei fanático por pipas. As soltava de noite ou de dia. No íntimo era minha forma de me comunicar com o mundo. Eu era de poucos amigos. Menino negro, de família pobre, com pouco brinquedos “modernos”: meus carrinhos de madeira, ou meu patinete de rolimã (que enguiçava toda hora), não eram atrativos para os meninos “endinheirados”, que dispunham de bicicletas de aro cromado, selim anatômico, acolchoado.

Vira e mexe voltava para a casa com o joelho ralado, marcas que guardo até os dias de hoje, na idade de homem maduro, que tristemente olha pro céu e não vê mais, em nenhum lugar, aquela inocência presa na forma de uma rabiola e carretel de linha.

CONFISSÕES DE UM MENINO PRETO

CONFISSÕES DE UM MENINO PRETO

Eu nasci no subúrbio carioca de Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Meu pai era servidor público; minha mãe foi dona de casa até a morte de meu pai, por volta de 1970. Tenho pouca informação sobre como era o meu pai no seu dia a dia. Da minha mãe me recordo bem: era festiva, risonha, estatura meã, operosa. Lembro-me que, moleque entre quatro irmãos menores, eu saía de casa para a rua, calção costurado à mão pela falta de máquina, camiseta e chinelo no pé. Eu era um menino preto franzino, mas bem nutrido e arrumado.

Subúrbios e quilombos guardam alguma semelhança. Ambos têm casas simples, pretos e pobreza. Eu me vi nesse lugar sem conhecer o que era um quilombo, como muitos ainda pouco se identificam com a cultura ou a religião de matriz africana. É normal dúvidas e incertezas. Também é normal evoluirmos para algo que vai além da memória afetiva, para alcançarmos a parte prática da vida. Sou desses que andam revisitando o passado. Sobretudo o da minha infância, especialmente o da minha ancestralidade.

No meu tempo de infância, minha mãe ralhava comigo para ficar um pouco em casa; hoje as mães fazem o oposto. A infância de hoje está circunscrita nos aparelhos eletrônicos e nas redes sociais. Minha neta Alika tem Instagram desde o primeiro ano de vida; aos três ela já tem centenas de seguidores.

Na minha época, a rua era o nosso maior parque de diversões; já o foi os playgrounds dos prédios modernos. Atualmente os quartos dos filhos são os compartimentos de domicílios onde se passa a maior parte do tempo. Sou da modernidade do carrinho de rolimã, feitos por nós moleques, com restos de madeira achados no lixo. Hoje a favelização – polvilhada de barracos – tira do lixo aquilo que era o maior alimento de nossa diversão.

Quando era bem pequeno minha avó Maria Fernandes dizia que o sol namorava com a lua. E nós – ainda imberbes meninos sonhadores – passávamos hora a fio sentados na beira da porta de casa contemplando o céu. O que queríamos, unicamente, era ver o beijo da estrela lua com o astro sol. Era tudo.