Por Adriana
ATIREI NUM PARDAL E ACERTEI UM DINOSSAURO

5 minutos

Vamos nesta jornada pelo Afroturismo, nunca se falou tanto e nunca nós vimos tantas ações ligadas a esta modalidade turística no Brasil.

Lembram-se que falei do processo que sofremos em 2006 ao lançar a Rota do Escravo? Bem, em primeiro lugar que a palavra “branding” não fazia parte de nosso vocabulário, em segundo lugar que os amigos não gostavam do termo, mas não tinham coragem de me falar, tamanho era o meu comprometimento com a projeto. Choque de realidade, Ministério Público, acusação de “apologia a escravidão” e “simpatia pela escravidão”, jornadas por delegacias do Vale do Paraíba como uma criminosa (esclarecimentos do tipo: “ a senhora chicoteia quilombolas?”, “ a senhora tem acertos com grandes fazendeiros para fazer o teatro da Escravidão?” Não, não, não….acode aqui Jesus……eu quero apenas falar como os negros construíram este país, que tem mão negra em tudo o que você pensa, que o “barão do café” só existe porque tem suor negro construindo sua riqueza, que Tia Nastácia e Tio Barnabé são maiores do que você imagina, que a segunda maior Festa Religiosa Católica de Aparecida é dedicada a São Benedito o santo preto e que os negros refazem os caminhos memoriais das lutas políticas no Reino do Ndongo através da Congada….ufa….explica, explica…

Audiência de conciliação, sem advogado vou eu e meu marido para o encontro, eu tenho a consciência livre, eu sei quem sou e o que desejo. A Juíza e o advogado jornalista impetrante do processo, uma conversa de gente louca, eu dizendo: – Este é o projeto da minha vida, como o senhor pode fazer isto comigo? Ao que ele responde: – Eu nem sei quem é a senhora, estou aqui processando sua empresa que faz apologia a escravidão….eu dizendo que estava baseada em todo o trabalho da UNESCO e ele respondendo que a UNESCO era uma instituição séria e que jamais apoiaria um projeto como o meu, eu explicando que não faço apologia a escravidão, que não amarro negro em tronco, ele dizendo que estou explorando o músico Bonfiglio de Oliveira ( o Bonfligio de Oliveira foi uma dos maiores músicos deste país, é praticamente desconhecido de todos, nasceu em 1898 e em 1930 compunha com Pixinguinha o grupo “ Os 8 Batutas”, pistonista, foi presenteado pelo então presidente Washington Luiz com um pistão de ouro, era considerado o Louis Armstrong do Brasil, e o advogado dizendo que eu explorava o Bonfliglio), enfim, a Juíza pergunta ao nobre advogado o que ele quer e ele responde:

– Que ela mude o nome deste projeto, pois todo mundo sabe que a baixa auto estima do negro é por conta de ser descendente de escravos…..

A Juíza então pergunta:

– A senhora vai mudar o nome do projeto? Eu respondo:

– Sim, mudo.

Ele se vira para a juíza e diz:

– Quero saber o novo nome.

Eu pergunto pra juíza:

– Sou obrigada a falar pra ele?

Ao que ela responde:

– Nobre advogado, trata-se de direito empresarial, ela não é obrigada a nos informar o novo nome, se o novo nome ferir as regras do direito, o senhor entra com novo processo! Assinei um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta, afirmando que não utilizaria a palavra escravo e escravidão, que só falaria dos negros e não exaltaria barões do café. Vocês podem ler todo o termo em: https://www.afropress.com/mp-sp-proibiu-uso-do-termo-rota-do-escravo/

E assim saímos da tal audiência, eu com o coração despedaçado por vivenciar aquele momento, com um novo nome na mente e ele feliz, tinha um jornal de web  e no dia seguinte estampou a manchete: “Acabamos com a Rota do Escravo”.

Eu???? Em 2009 a Rota da Liberdade foi eleita 1 dos 10 Melhores projetos de Geoturismo do Mundo no Desafio de Geoturismo da Ashoka/National Geographic, em 2012 fui convidada para a UNESCO para que o meu projeto de Turismo Étnico “Rota da Liberdade” fizesse parte do projeto de Desenvolvimento do Turismo de Memória da Diaspora, fui oficialmente contratada como Consultora, especialista Brasil/América do Sul, trabalhamos no Guia Metodológico de Desenvolvimento de Sítios de Memória da Diáspora Africana no mundo. Em 2020 ganhamos o Prêmio do Desafio da Ashoka/CTG Brasil como 1 das 3 Melhores Iniciativas de Turismo Sustentável do Brasil.

E vamos em frente pois lá vem história.

Até breve.

 

SOLANGE BARBOSA,  apaixonada pela vida, nascida na cidade de São Paulo, lá na Barroca Zona Sul (bairro do Cambuci e sede de uma das mais antigas escolas de samba da cidade), sou licenciada em História e Especialista em Afroturismo, CEO da Rota da Liberdade e 1 das 40 Global Shakers em Turismo Sustentável.

Publicado em 19/08/2021

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